domingo, 4 de maio de 2008

Torcidas

Um velho e conhecido trunfo cultural brasileiro, que andava esquecido e tão ausente nos últimos anos, vêem se transformando na mais eficaz munição da nojenta máquina registradora do futebol moderno: a torcida do Flamengo. Tem sido praticamente impossível atravessar uma semana sem se deparar com algum comentário nas ruas, ou visualizar uma matéria televisiva – talvez os dois – erguendo essa massa a uma altura celestial, imaculada, e fazendo de sua manifestação folclórica e colorida um comportamento obrigatório para todo o resto aplaudir e copiar. Não vejo problemas em excessos de elogios no futebol, até porque nunca vou cansar de mencionar os feitos de meus eternos ídolos. Mas porque será que somente esta torcida merece tamanha admiração? Afinal de contas, o que a torcida citada vem fazendo nos últimos meses é algo perfeitamente natural no Ceará, no Pará, em Dortmund, em Newcastle, em Istambul, em Bahía Blanca, em Tóquio ou qualquer outro lugar do mundo onde as pessoas se deslocam ao estádio. Partindo do argumento que a torcida flamenguista realiza a cada jogo uma familiar, massiva e exuberante celebração, e nada mais do que isso, a intenção da mídia esportiva parece ser fabricar um senso comum em relação ao comportamento nas arquibancadas entre todas as torcidas brasileiras. Desta maneira, deslocar-se-ia para bem longe a atenção que outra grande esquadra nacional têm tido devido às atitudes diferenciadas de sua torcida, que é o Grêmio porto-alegrense. O tricolor gaúcho, e toda repercussão que a sua nova geração de torcedores conseguiu atingir com suas ações, simboliza o “outro lado da moeda”, uma realidade totalmente oposta a do Flamengo. Seja em estética no estádio, como principalmente na maneira de apoiar o time, a Geral deu um verdadeiro pontapé na porta do comodismo cultural tupiniquim, e mostrou que alegria no futebol não tem relação obrigatória com medalhas e sucesso apenas. Há prazer na disputa, no sangue derramado. Uma reação confusa para muitos, por ser tão incomum no Brasil, foi a da Geral cantando sem parar nos derradeiros minutos da final da Copa Libertadores, mesmo com seu time sendo derrotado por cinco gols de diferença no placar total, e ainda jogando em sua casa. Isso cristalizou a finalidade revolucionária desta torcida, que nem mesmo de “torcida” gosta de ser chamada, mas que hoje para mim representa a mais apaixonante de todas no Brasil. Ao mesmo tempo, estão cada vez mais esfumaçados os motivos que trouxeram de volta aos olhos e mentes esportivos do país este expoente cultural carioca, que nos últimos anos, sofria de uma aguda e dolorosa crise, em campo e fora dele.
Antes de continuar, devo deixar claro aqui que estamos falando de um pilar futebolístico deste país, de um clube centenário, vitorioso e que presenteou a todos com o maior jogador brasileiro da era moderna, Artur Antunes Coimbra, mais conhecido como Zico. E também não deixam de serem verdadeiros os comuns adjetivos referentes à festa rubro-negra, tais como “emocionante” e “barulhenta”. Apesar de o Maracanã, lamentavelmente, ter entrado para o grupo de estádios que perderam sua alma para a ganância de alguns, a torcida do Flamengo têm apresentado muita alegria e disposição nas arquibancadas. Sobre isto, não há argumentos contra. Porém me pergunto qual o grande mérito de promover uma festa tão volumosa em um momento de puro êxtase do time. Isto é romper a unanimidade, desequilibrar a normalidade? Parece-me mais um desabafo, um grito de vitória que andava enjaulado e amordaçado nos corações rubro-negros Brasil afora há muito tempo, e que agora está explodindo junto com o crescimento do time nas tabelas. É a síndrome do “engenheiro de obra feita”, que em nada combina com a luta que o futebol reclama de seus atores. É também compreensível tamanho entusiasmo, pois a historia recente desta camisa aponta uma série de temporadas fugindo de rebaixamentos, contratações desastrosas, escândalos de corrupção na diretoria e poucos títulos de expressão. O reflexo desta ultima década conturbada foi imediatamente percebido na sua torcida, que passou a comparecer em menor número e mais aparecia na mídia em dia de São Judas, o santo protetor do clube, acendendo velas e esperando por milagres do que incentivando o time. As constantes obras no gigante estádio municipal, costumeira e informal casa flamenguista, também não ajudaram em nada. De repente, a maior torcida do Brasil agonizava e tinha que se ver de local em lugares como Volta Redonda e o estádio da pequena Portuguesa, da Ilha. O futebol carioca, que sempre foi fértil em criatividade e craques, foi um dos que mais perdeu lugar de destaque após a virada do século que trouxe, junto com os novos algarismos no calendário, tristes mudanças radicais no esporte bretão. O Flamengo se afundou em dívidas, e craques como Alex, Gamarra e Edílson entraram e saíram do clube sem deixar marca alguma. No exterior, a situação ficou desesperadora. Em 2001, após jogar bem melhor do que o San Lorenzo em Buenos Aires, o time perde a Copa Mercosul nos pênaltis. E se nos campeonatos secundários nada funcionava, da Copa Libertadores o Flamengo, juntamente com os seus famosos conterrâneos, simplesmente desapareceu. Para completar a desgraça dos bairristas mais fervorosos, todo ano ao menos dois times paulistas se faziam presentes. Naqueles dias onde a luta pela sobrevivência falava mais alto, senhoras e senhores, onde estava todo este orgulho que hoje transborda as jornadas rubro-negras? No Brasil, mais do que qualquer outro lugar do mundo, o resultado define muito a presença e o comportamento das torcidas. Isto é histórico e algo precisava ser feito com urgência para tentar trazer de volta a alegria aos campos cariocas, em especial a “magia flamenguista”. De repente, a velha e incansável parceria CBF - Rede Globo define que a Copa do Brasil estaria restrita aos clubes não participantes da maior competição entre clubes das Américas. Curioso lembrar que na Europa, todos os países conseguem acertar suas datas futebolísticas sem privar qualquer time, grande ou pequeno, de participar de alguma competição. Mas estamos no país dos erros premeditados e bem elaborados. Sem os grandes clubes paulistas como adversários, o caminho para a ressurreição carioca estava aberto. Logo, a Copa nacional se transformaria em uma “Copa Rio”, com os times fluminenses chegando a quatro finais seguidas, incluindo a decisão caseira entre Vasco da Gama e exatamente o Flamengo, que ao vencê-la, por fim, retornava a Libertadores. Não quero tirar os méritos do futebol carioca dominar esta competição ultimamente, mas há de se convir que tudo ficou muito plastificado e preparado de antemão. E assim, o mais popular time do Brasil voltava a “brilhar” e sua massa a sorrir, encher o Maracanã, soltar fogos e tremular bandeiras. Uma festa bonita? Sem dúvidas. A taça servia também para ofuscar a humilhante derrota de dois anos antes, quando o pequeno Santo André estragava a glória flamenguista de Felipe anulado por Dirceu, de muita poeira levantada e de um Galvão Bueno porta-voz de toda a frustração daquele diminuto Maracanazo. Mas a catarse não demoraria a chegar e o Flamengo estaria de volta à vanguarda. Uma festa louvável? Prefiro louvar a do Grêmio, onde foi na dor que a massa buscou alegria, força e disposição. Uma história desenrolada um pouco mais ao sul dos trópicos, mas ainda assim neste mesmo país, desacostumado a tomar iniciativas contra o pré-estabelecido.
No exato ano em que o Flamengo perdia aquela final e nenhuma melodia axé era ouvida após o jogo, o Grêmio, cujo passado também remete a importantes conquistas internacionais, sentia uma dor mais alucinante ainda, ao ser rebaixado para a segunda divisão nacional. E foi neste momento difícil que a torcida gremista chamou a atenção dos aficionados por futebol no Brasil, com verdadeiras demonstrações incondicionais de paixão ao clube, exatamente quando se esperava uma postura de protestos e certo abandono. Concordamos que toda torcida é apaixonada, e que em momentos ruins você tem que arrancar energia da mórbida inércia do fracasso. Isso aconteceu com o Palmeiras, Atlético Mineiro e até mesmo com o Botafogo carioca. Mas a torcida do Grêmio fez mais do que isso, causando um drástico impacto na maneira de torcer, inspirada nas torcidas sul-americanas, em especial as argentinas. Ademais as influências, que hoje são sentidas e vistas em diversos campos do país, a Geral mostrou ser possível interagir com a diretoria e atrair mais sócios para o clube, sem a necessidade de apelar para campanhas promocionais e burocráticas, valorizando a história da instituição esportiva e não da própria torcida, além de exibir homenagens a atletas e ex-atletas lembrados mais pelo poder de marcação do que pela habilidade em driblar e anotar gols – contrariando outra estúpida regra nacional. Na verdade, até a própria segunda divisão nacional, por fim, ganhou mais importância após toda a epopéia calorosa que a torcida gremista construiu naquele ano de 2005, coroada com um título inesquecível. Tudo isto não quer dizer que a torcida do Flamengo não é capaz de apoiar nos momentos ruins. Apenas simboliza o momento autônomo e delirante que um grupo de torcedores do sul concretizou - o que para muitos investidores do futebol moderno poderia significar um perigo sem precedentes, ou seja, o “faça você mesmo” batendo de frente com a “Torcida Nestlé”, ou o “Torcedor Família”. Torna-se, então, explícita e gritante a polarização entre estas duas torcidas, do Grêmio e a do Flamengo: uma acordou na derrota, a outra acordou na vitória. E somente este fato já deixa límpido para um amante do futebol, daquele que vive sua realidade nostálgica, que se há algo diferente borbulhando neste meio coagulado e demérito de elogios (da mídia inclusa) é a torcida gremista. Porém, ao assistir a anual retrospectiva esportiva da emissora de maior audiência do país, só havia uma torcida cujo espetáculo de sua mera presença no cimento do “maior do mundo” foi “impossível de se esquecer”. Nem é preciso dizer qual é essa torcida. O episódio do Olímpico foi despudoradamente ignorado. Senti naquele momento, à frente da “caixa idiota”, uma profunda lástima e a certeza de que o milagre da manipulação não é obra do acaso, ou de Deus, senão de alguns homens sobre uma mesa de edição espetada por bebidas energéticas. Estranho que tenho dedicado meus últimos vinte e três anos quase que exclusivamente ao futebol. E consegui tranquilamente esquecer-me das vezes que assisti a jogos do Flamengo ano passado. Do Grêmio, pelo contrário, tenho algumas imagens que nunca sairão da minha memória.
Chego à conclusão - precipitada talvez; cautelosa pelo que já vi até hoje no futebol; odiosa porque não suporto mais essa realidade sangrenta - de que há mais porquês motivando esta nova versão da “Fla-Mania” do que simplesmente um deslumbre humano. Quem quer ver um estádio lotado e colorido no Brasil, basta ir ao Ba-Vi, o famoso clássico máximo da terra de Jorge Amado. Sinceramente, e mesmo vivendo a era dos estádios vazios no Brasil, não sinto meu coração surpreendido ao ver um jogo do “time do povo” em um Maracanã repleto de gente, com a capacidade do mesmo tendo sido abruptamente reduzida, o time rumando ao topo do campeonato, com promoções de ingressos mais baratos - que muitas vezes podem ser trocados por alimentos ou roupas usadas - e com a televisão bombardeando diariamente imagens da mística desta camisa, ao som de Jorge Bem. Assim fica muito fácil, pouco natural e independente de quão ensurdecedor será o canto vitorioso desse aglomerado de sorrisos, nada disso foge da normalidade do futebol no resto do mundo. Mesmo assim, a torcida flamenguista está sendo alvo de constantes e incomparáveis aplausos e suspiros. Pode até ser que a raiz do combustível da Geral tenha contribuído para uma antipatia natural da maioria. Tanto quanto comer feijão, odiar argentino é um dogma primordial da sociedade brasileira. É fato. Logo, era de se esperar tal distanciamento entre as atitudes gaúchas e o reconhecimento merecido que nunca se alcança. Porém, não se deve colocar a culpa totalmente neste vil preconceito, e deixar de lado milionários interesses comerciais. A marca “Flamengo” vende. Esta marca disputando uma Copa Libertadores vende mais ainda. E a Geral gremista, mesmo sem o apoio incondicional da mídia que os rubro-negros têm, cravou sua bandeira no cenário das torcidas brasileiras, tornando-se um terrível concorrente nesta batalha monetária, ainda que sem esta intenção. A meu ver, a Geral vende somente emoção, porque nasceu pura e cresceu com uma força popular marginalizada em todos os sentidos. A massa flamenguista tem implícita em sua existência uma ligação inquestionável com a razão da manipulação e com o centro do universo brasileiro. A cultura carioca é vomitada como aquela que deve prevalecer sobre todas as outras: no sotaque é assim, na música igualmente e no futebol não seria diferente. A cultura gaúcha sempre vai ser vista como aquela do chimarrão, churrasco, do homossexual enrustido e de um povo que se julga superior e deseja independência. Uma rebelião desse povo deve ser derrubada, mesmo que para tanto seja necessário o uso da imparcialidade. Penso que desta vez, o tempo não dirá nada – já disse. O confronto está armado, em mais uma batalha oculta do futebol moderno. A opinião pública, que sustenta e derruba as guerras, vai definindo-a de acordo com o número de consumidores que se negocia. E o futebol e o homem vão perdendo a dignidade de poder usar a consciência na arte, e usufruir do gozo que ela pode trazer em sua plenitude.

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