sábado, 3 de maio de 2008

Hermanos Tricolores

Éramos sete: eu, Leonardo e Cléber na facção dos brasileiros; Juanjo, Diego "Lion", Miguel e Pablo representando os porteños. Nosso destino: o estádio Tres de Febrero, no bairro Jose Ingeniero, na província, a 40 minutos de ônibus do bairro Almagro. Fomos assistir à partida Almagro vs Defensa e Justicia, no dia 10 de maio.
Quando cheguei em Buenos Aires, descobri que o Grêmio tinha um time "irmão" por aqui. Não entendi muito bem o que isso significava, mas quando o Leonardo me mandou uma foto de uma pichação onde os escudos de Grêmio e Almagro apareciam juntos, percebi que a coisa era séria. A camiseta tricolor dos dois times é praticamente idêntica. Por isso, aceitei na hora a proposta de irmos ao estádio ver o Almagro jogar, tendo como guia o bem-humorado Juanjo, um sujeito alegre de quarenta anos e espírito de vinte que assim que me viu me entregou um punhado de adesivos tricolores onde se lê: "GREMIO-ALMAGRO / Hermanos Tricolores / Una Pasion Sin Fronteras".
Depois de ficarmos umas duas horas bebendo Isenbeck litrão e comendo panchos num boteco da Av. Córdoba, pegamos o 146 e viajamos 40 minutos até a província, bebendo Coca-Cola com Fernet misturados em garrafas pet. O Tres de Febrero fica muito longe da sede do clube (que fica no próprio bairro central de Almagro) porque quando eles foram construir seu estádio não havia mais espaço nenhum à disposição na cidade.
Num frio de rachar, em meio a uma paisagem urbana que poderia ser Canoas, descemos numa praça meio abandonada onde há uma estátua de uma vênus pintada de tricolor (toda semana a prefeitura limpa e toda semana eles pintam de novo, há anos, e será assim até o fim dos tempos). O estádio é pequeno, a lotação não chega a 20 mil, e nessa noite ele estava bem vazio, talvez porque mesmo com uma vitória a chance do time no campeonato da segunda divisão argentina era quase nula.Chegamos 15 minutos atrasados. As torcidas se concentravam atrás das goleiras, com as arquibancadas laterais quase desocupadas. O Defensa e Justicia tem uniforme verde e amarelo. Sentado no muro da arquibancada do Almagro, um torcedor vestia nos ombros uma bandeira do adversário enquanto sacudia outra bandeira do próprio time, provavelmente ostentando o troféu de alguma briga ocorrida antes da partida.
No instante em que saquei minha câmera, fui alertado pelo Diego para guardá-la o quanto antes. Parte da torcida é barra-pesada e eu poderia perder a câmera de maneira desagradável. O jogo foi horrível e o Almagro, que segundo os torcedores tinha jogado bem e vencido as últimas quatro partidas, perdeu de 1 a 0 numa partida pegada e violenta em que um dos atacantes do D&J usava um capacete de rugby. Não tinha bebida pra vender no estádio - a selvageria costuma comer solta antes e depois do jogo, e vender álcool nas imediações seria incitar o genocídio. A torcida do Almagro cantou seus hinos durante quase toda a partida, não de forma ininterrupta, mas com uma freqüência que fazia uma média entre o mau desempenho do time e a necessidade de rebater os gritos da torcida adversária. Detalhe que eu não sabia: em vez de vaiar, o argentino assobia. Gritar "UUHH" aqui não faz sentido algum. No final, mesmo com a derrota, todos, sem exceção, aplaudiram o time.
É incrível como os torcedores do Almagro veneram o Grêmio e se consideram irmãos. Vários torcedores estavam com camisa do Grêmio (as camisas são de fato idênticas, com exceção da mais recente do Almagro, que mudou o azul celeste para um azul mais escuro e pôs números amarelos, o que meio que cagou tudo) e alguns me disseram possuir 4 ou 5 camisas do tricolor gaúcho em casa. Miguel, que estava conosco, usava uma camisa do Almagro e uma jaqueta do Grêmio. Eles sabem tudo sobre o Grêmio e há várias pichações nos arredores do estádio com os escudos dos dois times e frases como "paixão sem fronteiras". Alguns dos torcedores com quem falei já foram a Porto Alegre assistir partidas do Grêmio. O desprezo pelo Inter e pelos bâmbis também é exatamente o mesmo. Alguns tinham a noção equivocada de que Grêmio e Palmeiras também eram times mais ou menos "irmãos". Eu e o Leonardo tratamos de desfazer esse engano com veemência, evocando a rivalidade dos anos 90. A saída do jogo foi tranqüila. Na chegada, nossos amigos argentinos queriam nos levar para ver uma das pichações que reúnem os dois times, mas como estávamos atrasados a idéia foi cancelada. Na saída, comecei a estranhar quando percebi que o caminho de volta até a parada de ôninus era diferente. Caminhamos umas 8 quadras por uma vizinhança cada vez mais deserta e ameaçadora. Quando estava prestes a perguntar qual era nosso destino, tudo ficou claro: tínhamos ido até um muro enorme em que os escudos do Almagro e do Grêmio se confundiam em meio a faixas de tinta tricolores e frases celebrando a identificação dos dois times. Estávamos a duas quadras do Forte Apache, a favela de onde saiu o Tevez e onde a polícia nunca entra. Era 1h da manhã. O fato de eu estar vivo comprova que o conceito de estatística é uma farsa.
Eu e o Leonardo precisávamos acordar cedo e queríamos ir embora, mas o entusiasmo e a hospitalidade dos porteños não permite negativas. Recusar uma cerveja pós-jogo é "mala onda". Depois de atravessar a Ciudadela a pé e cruzar a Av. General Paz, entramos no bar Sammy, onde samambaias e néons multicoloridos se somavam a uma televisão que mostrava a partida entre Nacional e Necaxa pela Libertadores. As Heinekens litrão saíam tinindo da geladeira e eram despejadas em canecos que pareciam ter sido conservados a 1km de profundidade no gelo Antárctico. Entramos noite adentro, é claro.A sensação final dessa experiência é de injustiça: por que os gremistas não conhecem o Almagro? Não sei bem a origem dessa identificação tão forte, mas sei que os torcedores deles torcem para o Grêmio com paixão legítima, como se os dois times fossem dois batalhões numa mesma frente - um menor e mais modesto (ainda assim, é o time de segunda divisão argentina que mais vezes subiu à primeira), o outro maior e mais famoso. É injusto que os gremistas não retribuam essa amizade. Na próxima vez em que você for a um jogo do Grêmio, olhe com cuidado ao redor. Pode ser que você encontre alguém com uma camisa do Almagro, quase idêntica à nossa. De minha parte, já comprei a jaqueta oficial de nossos irmãos porteños. Se eu encontrar um torcedor do Almagro no Brasil, quero que saiba que estive em seu estádio e torci pelo seu time.
-Daniel Galera é escritor, e está na Argentina às custas de Impedimento para cobrir a Segunda Divisão dos Hermanos, além dos funerais de Maradona.

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